sexta-feira, 30 de maio de 2014

eu



— Você tem um cigarro?
— Estou tentando parar de fumar.
— Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
— Você tem uma coisa nas mãos agora.
— Eu?
— Eu.

fora da linha


Você é gentil e doce. E cada gesto seu me surpreende. Sei lá, acho que ninguém nunca fez nada de bom por mim a vida toda, nada parecido com o que você conseguiu em dois dias. Meio abrupto, reconheço. Você me faz viver fora da minha linha e é isso que eu gosto em você.

você não merece

Você não merece que eu te olhe desse jeito carinhoso que eu inventei de te olhar. Você não merece me atormentar só porque está agora com outra pessoa e não comigo. Você não merece que eu jogue fora uma nota de vinte numa coletânea do Tom Waits só porque você me disse que adora Tom Waits, aquele rouco idiota que até dois meses atrás era um desconhecido para mim. Você não merece que eu automaticamente adore todas coisas que você adora, só pra me sentir mais por dentro da sua vida, das suas coisas, de nós dois. – (Pausa.) – Você não merece todas as horas que eu gasto pensando em você ao invés de estudar todas aquelas bostas sem sentido que o Kafka escreveu e vão cair na prova amanhã, no primeiro período. Você não merece que eu imagine você no lugar do meu namorado quando ele está com aquele peso todo em cima de mim. Você não merece um pingo de lágrima que eu já irriguei de saudade das nossas conversas. – (Pausa. E soluço.) – Você não merece representar tudo de bom que eu jamais vi em um outro ser humano, desde que minha mãe morreu. Você não merece me derreter como se tivesse a porra de um raio laser implantado na sua íris. – (Pausa. Tremelique no queixo.) – Você não merece ser a única pessoa em todo o planeta que sabe como me fazer sentir alguém admirável e especial no meio dessa aglomeração selvagem de gente histérica e egoísta por todo lado. – (Pausa. Lágrima. Raiva.) – Você não merece modificar toda a minha estrutura de vida apenas sendo isso que você é. Você não merece! Não merece! Não merece! – (Choro convulsivo e embaraçoso, escondendo o rosto nos braços entrelaçados chapados no balcão.)

ela

Ela tem um ar catastrófico, sensual e infeliz. Anda cabisbaixa e parece não saber direito onde pisar, para onde olhar, o que dizer.

me solta

Diz que não me quer. Diz que sente por mim, que me acha legal, inteligente, bacana, qualquer coisa, mas que não me quer. Diz que não dá para a gente ficar junto, nem agora, nem daqui a pouco. A minha bunda dói de ficar sentada em cima do muro. E não é só a bunda. A analogia inteira de mim. Dói tudo, até a personalidade. Quase ninguém nunca chega a sangrar minha personalidade. E, olha só, essa porra tá sangrando. Não espero que me diga borboletas, porque você não as sente. Nunca esperei, na verdade. Sempre soube da minha não-reação química aí dentro do teu monstro. Eu só quero (e espero, de agora em diante, todos os minutos, de verdade) que diga que não me quer. Dá um tiro nas minhas algemas, por favor. Com toda a humildade que eu adquiri na minha vida inteira. Por favor. Me solta. Não sou passarinho, nem rato de gaiola. Me solta. Eu não quero mais ser sua.

você

O tempo parecia pouco e a gente se parecia muito.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

lembranças


Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço.